
Em novembro, o Brasil celebra o Dia da Consciência Negra — uma data que não é apenas sobre memória, mas sobre presença, resistência e futuro.
Mas para falar de consciência, é preciso ampliar o olhar: como o racismo, o capacitismo e o sexismo se entrelaçam nas desigualdades que moldam quem tem acesso a direitos, voz e reconhecimento?
A força da interseccionalidade
A jurista afro-americana Kimberlé Crenshaw criou o termo interseccionalidade para explicar como diferentes formas de opressão — raça, gênero, deficiência, classe — se cruzam e se reforçam mutuamente.
No Brasil, esse cruzamento ganha rosto: mulheres negras com deficiência enfrentam as maiores taxas de desemprego, violência e exclusão social.
A cada estatística, há uma história de sobrevivência e potência.
O Movimento Vidas Negras com Deficiência Importam, simboliza a união das lutas antirracista e anticapacitista. Sua voz coletiva reafirma que não há antirracismo sem acessibilidade, nem equidade sem interseccionalidade.
Direitos humanos e o direito de existir plenamente
O Brasil possui avanços significativos no campo dos direitos humanos — como a Lei Brasileira de Inclusão (2015), o Estatuto da Igualdade Racial (2010) e a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006). Esses marcos representam décadas de lutas travadas por movimentos sociais que se organizaram, marcharam, redigiram propostas e pressionaram o Estado por mudanças.
Mas nenhuma conquista se sustenta sozinha. Os direitos só se tornam reais quando há participação social, articulação política e vigilância permanente.
E, quando falamos em estranhamento, é essencial reconhecer que esse sentimento também precisa alcançar a forma como o Estado trata determinados corpos. Pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas pobres e aquelas que vivem a sobreposição dessas identidades continuam tendo seus direitos básicos — inclusive o direito à vida e ao devido processo legal — violados diariamente. Deve nos causar indignação ética perceber que, muitas vezes, esses sujeitos são alvos preferenciais de violência estatal justamente por serem quem são e por estarem onde estão: nas periferias, nas fronteiras sociais, nas margens que o país insiste em produzir. Enfrentar essa realidade é parte do compromisso coletivo com os direitos humanos e exige de nós atenção, responsabilização e ação política.
Ainda hoje, apesar dos avanços legais, a exclusão de pessoas negras com deficiência continua sendo estrutural. Ela se manifesta na falta de acessibilidade, nas políticas que ignoram a diversidade e nas falas que silenciam certas existências. Persiste também no racismo institucional nos serviços de saúde, na exclusão escolar, na sub-representação em cargos de poder e no cotidiano de micro violências e barreiras de atitude — aquelas que, antes de estarem nas ruas, habitam as mentes.
Garantir os direitos humanos é, portanto, uma tarefa coletiva e contínua.
Exige o compromisso de todas as pessoas — com e sem deficiência, negras, brancas, indígenas, quilombolas, de diferentes gêneros e territórios.
Porque os direitos humanos só se concretizam quando a sociedade inteira se reconhece como parte da luta e entende que a dignidade de uma pessoa é responsabilidade de todas.
Incluir é refazer a cultura
Como aponta Mantoan, incluir é “refazer a cultura”, e não apenas adaptar espaços.
Isso significa transformar as relações, os imaginários e as formas de poder que definem quem pode estar, quem pode falar e quem é constantemente silenciado.
A inclusão social não se limita à eliminação de barreiras físicas: ela exige reconfigurar os espaços de participação, para que todas as pessoas possam ocupar, representar e se reconhecer nesses lugares.
Refazer a cultura é ampliar o senso de pertencimento.
É garantir que pessoas negras, com deficiência, indígenas, quilombolas, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e tantas outras não sejam apenas convidadas a entrar, mas sejam reconhecidas como protagonistas da construção social, política e simbólica do país.
Quando diferentes corpos e vozes passam a compor os espaços de decisão, de arte, de mídia e de política, a própria ideia de “normalidade” se expande — e a sociedade se torna mais justa, plural e viva.
Um dos principais sentidos da inclusão está em reconstruir a narrativa coletiva, para que ninguém mais seja exceção, para que ninguém fique de fora.
Consciência negra é consciência humana
Falar de Consciência Negra é falar de humanidade.
É reconhecer que a luta das pessoas negras, das pessoas com deficiência e das mulheres não são pautas separadas — são expressões da mesma busca por dignidade.
Como lembra Romeu Sassaki, pioneiro da inclusão no Brasil,
“Inclusão não é caridade — é cidadania.”
E cidadania, no Brasil de hoje, só existe quando todos os corpos — negros, com deficiência, trans, indígenas, gordos, neurodiversos — podem existir com liberdade, afeto e poder de decisão.
Para lembrar e agir
O Dia da Consciência Negra não é apenas sobre o passado de Zumbi, Dandara ou Luiza Mahin.
É sobre as pessoas negras com deficiência que ainda hoje são invisibilizadas. É sobre o futuro que podemos construir, onde a diferença não seja sinônimo de desigualdade.
Concluo este artigo reafirmando que incluir é verbo político.
É reconhecer o valor de todas as vozes, fortalecer o empoderamento das pessoas e dos grupos historicamente silenciados e reconstruir as narrativas que sustentam nossas memórias.
Incluir é afirmar uma história viva — não apenas a do que fomos, mas a do futuro que queremos construir, justo, plural e verdadeiramente democrático.
Informações à Imprensa:

Jô Ribes – joribes@joribes.com.br | +55 11 93308-8341 | +55 11 99998-6560
Andrea Torres – andrea.torres@joribes.com.br | +55 11 93308-8341 | +55 11 99494-4822
Especialista em educação inclusiva, acessibilidade e história afro-brasileira.








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