
Em um mundo de violência e desamparo, o limite é um ato de cuidado que promove a segurança emocional e o respeito ao próximo
Vivemos em um mundo marcado por intolerâncias, guerras, discursos de ódio e diferentes formas de violência. Muitas vezes, acreditamos que essas atitudes estão distantes de nós, restritas a outros países, outros contextos ou grandes conflitos. No entanto, o cotidiano insiste em nos contrariar.
Somos constantemente surpreendidos por notícias de violência entre adolescentes, falta de empatia, agressões nas ruas, crueldade contra animais e relações cada vez mais marcadas pela indiferença.
Esses episódios não surgem do nada — eles se constroem no dia a dia, nas pequenas relações, nos modos como aprendemos a conviver, a lidar com frustrações e a reconhecer o outro.

Montagem ABCdoABC/Reprodução/Internet
Nos últimos dias, algumas notícias chamaram atenção e causaram indignação. Adolescentes envolvidos em brigas violentas nas ruas, com vítimas fatais. Casos de crueldade contra animais. Discussões sobre jogos on-line e ambientes virtuais onde jovens circulam livremente, muitas vezes sem supervisão, correndo uma série de riscos.
Diante desse cenário, é comum buscarmos respostas rápidas: culpar a internet, os jogos, a escola, a falta de policiamento. Mas talvez seja necessário olhar para um ponto mais profundo — e mais delicado: o lugar dos limites na educação dos nossos filhos e filhas.

Falar de limites ainda provoca desconforto. Para muitos pais, dizer “não” parece sinônimo de repressão, autoritarismo ou falta de afeto. Mas limite não é castigo. Limite é cuidado. Limite é presença. Limite é amor em ação.
Crianças e adolescentes não nascem sabendo conviver. Eles aprendem e aprendem principalmente a partir das referências dos adultos. Quando mães e pais acompanham, perguntam, se interessam, colocam combinados e sustentam regras, estão ensinando algo essencial: que o mundo não gira apenas em torno do próprio desejo.
No livro Entre o Passado e o Futuro, Hannah Arendt faz uma reflexão que continua extremamente atual. Para ela, educar é assumir responsabilidade pelo mundo diante das novas gerações. O adulto não pode simplesmente se retirar, fingir neutralidade ou entregar toda a decisão às crianças e aos adolescentes. Quando isso acontece, o jovem não se sente livre — ele se sente sozinho.

Quando o adulto abdica do seu lugar, não está sendo democrático ou moderno. Está deixando o jovem sozinho diante de um mundo que ele ainda não tem condições de compreender ou enfrentar. Colocar limites, nesse sentido, não é controlar a vida do filho, mas apresentar o mundo, com suas regras, riscos e responsabilidades. É dizer, com atitudes: “Existe um mundo aí fora, e eu estou aqui para te ajudar a atravessá-lo.”
O psicólogo e educador Yves de La Taille, em Limites: três dimensões educacionais, ajuda a entender por que a ausência de limites cobra um preço tão alto. Para ele, os limites fazem parte da formação moral e emocional. Eles protegem, organizam a convivência e ajudam a construir valores como empatia, respeito e responsabilidade. Quando essas dimensões se perdem, o limite vira ou violência, ou permissividade total. Nenhuma das duas educa.

Hoje, muitos adolescentes vivem uma contradição perigosa. Têm liberdade quase total no universo virtual: acesso irrestrito a conteúdos violentos, discursos de ódio, desafios perigosos e relações sem mediação. Ao mesmo tempo, carecem de referências claras no mundo real — de adultos que sustentem limites, orientem, escutem e acompanhem.
Sem limites claros, o que aparece não é autonomia — é insegurança. Não é liberdade — é desamparo. Muitos jovens, sem esse contorno, manifestam sofrimento emocional, ansiedade, depressão, explosões de raiva e, em alguns casos, comportamentos violentos. A violência, muitas vezes, é um grito de quem não encontrou referências.
Existe um medo grande de frustrar os filhos. Mas o que pouco se fala é que a ausência de limites também gera sofrimento. Sem referências claras, muitos jovens se sentem inseguros, sobrecarregados e sozinhos. Precisam decidir tudo, lidar com tudo, dar conta de emoções intensas sem apoio. O limite bem colocado transmite uma mensagem silenciosa, mas essencial: “Você não precisa dar conta de tudo sozinho.”

Esse desafio se torna ainda mais delicado quando falamos de crianças e adolescentes com deficiência ou neurodivergentes. O cuidado e a proteção são fundamentais, mas não substituem a necessidade de limites claros. Todas as pessoas, independentemente de suas condições, precisam de referências, combinados e responsabilidades compatíveis com sua idade. É assim que se constrói segurança emocional e autonomia.
Participar da vida dos filhos não significa vigiar cada passo, controlar tudo ou invadir sua intimidade. Significa estar presente. Saber com quem eles andam, o que consomem, o que sentem. Significa conversar sobre como veem o mundo, sobre o que acessam na internet, sobre o que machuca o outro e sobre o que não é aceitável numa vida em sociedade.

Limite não deve vir acompanhado de grito, ameaça ou humilhação. O limite que educa nasce do vínculo, da escuta e da coerência. É o adulto que diz “não” e permanece. Que sustenta a frustração do filho sem abandoná-lo emocionalmente. Que ensina que sentir raiva é humano, mas machucar o outro não é.
Educar é preparar para o mundo, não se blindar dele. É ajudar crianças e adolescentes a se tornarem pessoas emocionalmente mais seguras, empáticas, críticas e responsáveis.
Em tempos de tanta violência e desorientação, talvez seja hora de resgatar algo simples — e profundo: limites também são uma forma de amar. E pais que participam da vida dos filhos ajudam a formar não apenas indivíduos mais seguros, mas uma sociedade mais cuidadosa e humana.
Artigo originalmente publicado no ABC do ABC.
Especialista em educação inclusiva, acessibilidade e história afro-brasileira.












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